Durante a autópsia, assim que o patologista pegou no bisturi e estava prestes a fazer a primeira incisão, a mulher abriu os olhos de repente e sussurrou: “Por favor, não lhes digam que estou viva.”

HISTÓRIAS DA VIDA

Durante a autópsia, no momento em que o patologista pegava no bisturi e estava prestes a fazer a primeira incisão, a mulher abriu subitamente os olhos e sussurrou: “Por favor, não digam que estou viva”. Mas o que se seguiu foi muito mais horrível.

O corpo de uma jovem chamada Sofia tinha chegado à morgue uma hora antes.

De acordo com os documentos, tudo estava claro: um grave acidente de viação nos arredores da cidade. O carro saiu da estrada e capotou várias vezes. Os paramédicos tentaram salvar a mulher, mas o relatório indicava que os seus ferimentos eram fatais.

O patologista, Michael, trabalhava ali há mais de vinte anos e conhecia o seu trabalho como a palma da sua mão.

Preparou os instrumentos, ligou a lanterna de cabeça e estava prestes a iniciar o exame quando reparou em algo estranho.

O corpo estava quente.

Quente demais.

Michael franziu o sobrolho e releu os documentos.

A hora da morte era indicada como tendo ocorrido quase duas horas antes.

Claro que o corpo não deveria estar tão frio em tão pouco tempo, mas a temperatura ainda lhe parecia anormal.

Largou o bisturi e tocou no pescoço da mulher.

Durante alguns segundos, nada aconteceu.

Depois Michael sentiu um pulso fraco sob os seus dedos. Muito fraco, mas presente. O médico retirou a mão abruptamente.

E, nesse instante, a mulher abriu os olhos. Michael quase deixou cair os instrumentos.

Sofia respirou fundo, olhou para ele e levou logo um dedo aos lábios.

“Doutor… por favor, não diga a ninguém que estou viva. Eu imploro-lhe.”

“O quê?…”

Michael estava prestes a pedir ajuda quando a mulher lhe segurou subitamente o pulso.

“Com cuidado.”

Ela olhou para a porta de vidro fosco. Atrás do vidro, eram visíveis as silhuetas de dois homens.

“Aquele é o seu marido?”, perguntou Michael suavemente.

O horror estampou-se nos olhos de Sofia.

“Ele não é meu marido”.

Michael não teve tempo para dizer mais nada. A porta da morgue abriu-se com um baque surdo.

Sofia fechou imediatamente os olhos e gelou.

Um homem alto, vestido com um elegante fato preto, entrou na sala.

O segundo homem permaneceu atrás da porta.

“Bem, doutor?”, perguntou o estranho calmamente. “Ela está mesmo morta?”

Michael olhou para Sofia.

“De acordo com os documentos, sim.”

“Não me interessa o que está nos documentos.”

O homem aproximou-se lentamente da mesa.

Sofia permaneceu imóvel, mal conseguindo suster a respiração. O estranho inclinou-se tão perto dela que ela podia sentir a sua respiração no ouvido.

Queria gritar, mas sabia: mais um movimento e tudo estaria acabado.

O homem sussurrou de repente:

“Sempre jogaste mal, Sofia.”

Um arrepio percorreu a espinha da mulher. Michael ouviu estas palavras.

O estranho endireitou-se e olhou para o médico.

“Preciso do relatório hoje.”

“Estará pronto dentro de algumas horas.”

O homem assentiu e dirigiu-se para a saída.

Mas parou à porta. E, nesse preciso momento, algo muito pior aconteceu.

Colocou a mão na borda da mesa de metal e disse de repente:

“Cuide deles, doutor.”

O homem saiu.

Michael esperou até que as figuras atrás do vidro desaparecessem para trancar a porta.

A Sofia respirou fundo e começou a chorar.

“Quem são estas pessoas?”, perguntou o médico.

A mulher permaneceu em silêncio durante alguns segundos.

Então, ela contou tudo.

Durante quatro anos, Sofia trabalhou como contabilista numa grande empresa. Há algumas semanas, ela descobriu acidentalmente contas que nunca deveriam ter existido.

Grandes somas de dinheiro estavam a passar por elas.

A princípio, Sofia pensou que se tratava de uma simples manipulação financeira, mas depois encontrou documentos com os nomes de pessoas que tinham desaparecido anos antes.

Ela fez cópias. E foi aí que começaram a assediá-la.

“O homem que esteve aqui mais cedo trabalha para o dono da empresa”, disse Sofia. “Ontem, veio a minha casa e exigiu os documentos.”

“E o acidente?”

A Sofia olhou para o médico. “…Não foi um acidente.”

O carro dela tinha sido atirado para fora da estrada de propósito. Sofia recordava o impacto, os vidros partidos e o homem que lhe deu um pontapé no carro alguns minutos depois.

Ela ainda estava consciente. E conseguia ouvir a voz dele ao lado dela.

“Ela ainda está viva.”

Então, deram-lhe uma injeção. Só acordou quando já estava na mesa da morgue.

Michael empalideceu.

“Mas quem a declarou morta, então?”

“Não sei.”

O médico olhou para os documentos que estavam ao seu lado.

Percebeu então que não podia confiar neles.

“Onde estão as cópias que procura?”

Sofia permaneceu em silêncio durante alguns segundos.

“Achas que eu as escondi?”

“E a verdade?”

A mulher sorriu pela primeira vez em todo este tempo.

“Enviei-as para um jornalista ontem de manhã.”

Michael olhou para ela surpreendido.

Isso significava que matar Sofia já não era suficiente.

A informação ainda podia vazar a qualquer momento.

O médico encontrou rapidamente algumas peças de roupa, ajudou a mulher a levantar-se e conduziu-a pelo corredor de serviço.

Antes de sair, voltou à mesa e cobriu os cobertores hospitalares enrolados com um lençol, para que, à distância, parecesse que o corpo ainda lá estava.

Uma hora depois, Sofia estava do outro lado da cidade.

E na manhã seguinte, aconteceu aquilo que aqueles que a queriam matar mais temiam.

Um grande órgão de comunicação social publicou os documentos. Foi iniciada uma investigação e vários executivos da empresa foram presos.

Mas o homem de fato preto tinha desaparecido. Nunca foi encontrado.

Rate article