Eu estava à porta do quarto do bebé e não conseguia respirar normalmente. Tudo dentro de mim se apertou num nó tenso. O quarto, que ainda ontem parecia ser o lugar mais quente e seguro da casa, agora parecia cenário de uma pequena catástrofe: roupas de bebé espalhadas, um cobertor rasgado, o armário aberto.
Sara estava encostada à parede, com a mão na barriga. O rosto dela estava pálido, os olhos arregalados de medo. Ela não chorava, mas pelo olhar era claro que ainda não conseguia acreditar no que tinha acontecido.
E, no meio do quarto, estava o Rex.
O meu cão. O meu amigo. Aquele que sempre me recebia na porta e se deitava ao meu lado quando eu me sentia mal. Mas agora parecia diferente: o pelo eriçado, o peito a subir com dificuldade, um pedaço de roupa de bebé preso entre os dentes. Ele já não ladrava nem saltava. Apenas ficava ali, a olhar.
— Parece que ele enlouqueceu, — disse Sara baixinho. — Eu estava a arrumar as coisas e, de repente, ele começou a rosnar… não para mim, mas para o armário. Depois saltou para lá e começou a rasgar tudo.

Eu já não estava a ouvir.
Só restava em mim um único sentimento — medo por ela e pelo bebé. Não pensei, simplesmente agarrei o Rex pela coleira e arrastei-o para fora. O mais estranho foi que ele não resistiu. Andava calmamente, olhando para mim como se tentasse explicar-me alguma coisa.
Mas eu não queria entender.
Pus o cão lá fora, no frio e na chuva, e bati a porta. De forma brusca. Definitiva. Naquele momento, pareceu-me que estava a fazer o certo.
Sara disse baixinho:
— Ele está com frio…
— Ele é perigoso, — respondi. — Podia ter-te magoado.
Tirei-lhe as tigelas e decidi que ele precisava de sentir o castigo.
À noite, o vento batia nas janelas e a chuva não parava. Eu ouvia o Rex a arranhar a porta. Antes, esse som parecia-me familiar, quase caseiro. Agora só me irritava.

Passou um dia. Depois mais um.
O Rex parou de arranhar. Apenas ficou sentado no quintal — molhado, imóvel, silencioso. Eu via-o pela janela. E, de um modo estranho, ele não olhava para a porta, mas para a janela do quarto do bebé.
Foi então que algo dentro de mim vacilou.
Lembrei-me de como ele se tinha comportado naquele dia. Não atacava. Não mordia. Estava concentrado precisamente no armário.
Esse pensamento já não me largava.
No terceiro dia, subi ao quarto do bebé, abri a porta e aproximei-me lentamente do armário. As coisas ainda estavam espalhadas. Comecei a arrumar as roupas, a afastar os pequenos fatos, cobertores e fraldas, tentando perceber o que poderia ter assustado tanto o Rex.
No início, não encontrei nada.
Depois reparei numa fenda na parede do fundo do armário. Era quase invisível, mas o painel estava ligeiramente encurvado, como se algo o pressionasse por dentro.
Um arrepio correu-me pelas costas.
Deslizei cuidadosamente o painel — e, no instante seguinte, perdi o fôlego.
Havia algo a mexer-se lá dentro.
Uma cobra.
Escura, grossa, enroscada no espaço vazio atrás do armário. E ao lado — um ninho com ovos, escondido no calor.
Ela não atacou de imediato. Apenas levantou a cabeça e ficou a olhar para mim.
E então percebi tudo.

O Rex sentiu-a desde o início. Ele não enlouqueceu. Não tentou atacar. Tentava alcançar o perigo e proteger-nos.
Ele rasgava as roupas do bebé não porque tivesse perdido o controlo.
Estava a tentar salvar-nos.
E eu… eu expulsei-o para a chuva e castiguei-o por ter feito tudo certo.
Fechei o armário lentamente e saí a correr.
A chuva quase tinha parado, mas o chão estava molhado e frio. O Rex ainda estava no mesmo sítio. Quando me aproximei, ele levantou a cabeça.
— Perdoa-me… — disse eu baixinho.
Ele não rosnou. Não se afastou. Apenas se aproximou e encostou-se a mim, como sempre.







