Todas as segundas-feiras, um homem idoso comprava sempre dois bilhetes de cinema para si mesmo. Então, um dia, decidi descobrir o motivo.

HISTÓRIAS DA VIDA

Todas as segundas-feiras, um senhor idoso comprava dois bilhetes de cinema, mas sentava-se sempre sozinho. Um dia, decidi descobrir por quê — e a verdade mudou não só a vida dele, mas também a minha.

O velho cinema da cidade não era para mim apenas um trabalho. O cheiro da pipoca, o ruído do projetor, os cartazes desbotados nas paredes — tudo isso parecia um mundo à parte, onde por um momento se podia esquecer a realidade.

Todas as segundas-feiras de manhã, um senhor idoso chamado Edward ia até lá. Estava sempre impecavelmente vestido: casaco cinzento, cabelos prateados penteados para trás, olhar sereno.

E sempre pedia a mesma coisa:

— Dois bilhetes para a sessão da manhã.

Mas entrava sozinho na sala.

Os colegas brincavam dizendo que ele comprava o segundo bilhete para um fantasma ou para um amor perdido. Mas eu não achava graça. Em Edward havia uma tristeza tão silenciosa que eu não me atrevia a perguntar diretamente.

Num dos meus dias de folga, comprei um bilhete e sentei-me ao lado dele.

Ele olhou para mim e sorriu de leve.

— Hoje você não está a trabalhar.

— Pensei que talvez o senhor precisasse de companhia.

Edward sorriu baixinho.

— Não se trata dos filmes.

Perguntei com cuidado:

— Então do que se trata?

Ele ficou muito tempo olhando para o ecrã e depois começou a contar.

Há muitos anos, uma rapariga chamada Evelyn trabalhava naquele cinema. Ele apaixonou-se por ela. Não de forma barulhenta, nem repentina, mas da única maneira como se ama uma vez na vida.

Um dia, convidou-a para uma sessão da manhã. Ela aceitou.

Mas nunca apareceu.

Mais tarde, Edward descobriu que ela tinha sido despedida. Quando pediu ao gerente os contactos dela, o homem recusou e mandou-o não voltar mais.

Evelyn desapareceu.

Edward tentou seguir em frente. Casou-se, viveu uma vida tranquila, mas depois da morte da esposa voltou a frequentar aquele cinema. Todas as segundas-feiras comprava dois bilhetes — um para si, o outro para a mulher que nunca conseguiu esquecer.

— Eu vou ajudá-lo a encontrá-la, disse eu.

E só então percebi: o gerente que tinha despedido Evelyn anos antes era o meu pai.

A conversa com o meu pai foi difícil. Durante muito tempo ele recusou-se a dizer qualquer coisa, mas quando ouviu o nome Evelyn, o rosto dele mudou.

— Ela não se chamava Evelyn, disse ele por fim. O nome verdadeiro dela era Margaret.

Fiquei imóvel.

Margaret — era assim que a minha mãe se chamava.

Descobri-se que, muitos anos antes, ela trabalhava no cinema com outro nome. Teve um romance com Edward. E quando o meu pai descobriu, ela já estava grávida de mim.

A sala pareceu girar diante dos meus olhos.

Edward empalideceu.

— Ela nunca me contou…

O meu pai virou-se para o lado. Na voz dele, pela primeira vez, não havia frieza — apenas cansaço e arrependimento.

Fomos juntos até à minha mãe.

Ela estava doente há muito tempo, a memória falhava-lhe com frequência, mas quando Edward se aproximou dela e disse baixinho:

— Evelyn…

ela ergueu os olhos.

— Edward?

Nesse momento, percebi que nem os anos, nem a dor, nem o silêncio conseguem sempre apagar um amor verdadeiro.

Do lado de fora, começou a cair neve.

E, pela primeira vez em muito tempo, não sentíamos que o passado nos estava a destruir. Parecia que, finalmente, ele nos deixava recomeçar.

E vocês, o que diriam aos protagonistas desta história? Escrevam a vossa opinião nos comentários e partilhem.

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