Num restaurante de luxo no centro da capital, o ar estava sempre impregnado de perfumes caros, vinhos envelhecidos e aromas de pratos refinados. Ali, todos estavam habituados a muito dinheiro, a apelidos sonantes e a pessoas que tratavam os funcionários como parte da decoração. Nessa noite, Gabriel sentia-se o dono do lugar.
Entrou com confiança, sem sequer se virar para a amante, como se ela fosse apenas um bonito complemento do seu estatuto. Com um olhar arrogante, avaliava os clientes, decidindo quem ali estava abaixo dele. Sentou-se na melhor mesa em silêncio, recostou-se na cadeira e só depois olhou preguiçosamente para a empregada de mesa.
Sofia aproximou-se com calma, com o bloco na mão. O olhar do rico percorreu-a lentamente e com desprezo, do penteado aos sapatos gastos, demorando-se nas mãos cansadas.
— Água. E a carta de vinhos, — atirou ele, sem a olhar. — Embora duvide que num sítio destes haja alguma coisa decente.
Começou a implicar logo, em voz alta e de forma ostensiva, para que as mesas vizinhas ouvissem. Comentava os pratos, torcia o nariz, elevava a voz, saboreando cada farpa.
— Sabe, já comi uma salada no melhor restaurante de França, — disse com um sorriso trocista. — Vocês têm isso aqui? Duvido.
— Que serviço… Nesses sítios contratam mesmo qualquer um.

Ele não fazia aquilo por causa da comida. Queria humilhar a empregada, fazê-la reagir e, assim, parecer ainda mais importante aos olhos da amante.
A mulher de vestido vermelho inclinou-se para ele e riu alto, demasiado alto, como se daquela risada dependesse o lugar dela ao seu lado.
— És tão inteligente, meu amor, — disse ela. — Como é que sabes tudo isso?
Sofia manteve-se em silêncio e anotou o pedido, sem levantar os olhos. Na sala, as pessoas começaram a olhar à volta. Todos se sentiam desconfortáveis a observar aquela cena, mas ninguém intervinha.
Gabriel percebeu que não era suficiente. Quis acabar de humilhar o serviço. Passou para um francês afetado, complicando de propósito as frases, alongando as palavras e desfrutando do momento.
— Tu comprends ce que je te dis, espèce de mouton stupide ?
Riu-se, convencido de que tinha à frente alguém que não perceberia uma única palavra.
A amante riu-se também, sem entender o significado, mas percebendo que “era preciso rir”.
Sofia levantou os olhos.
Olhou diretamente para ele, com calma e confiança. Sem confusão. Sem medo. A pausa prolongou-se e, naquele silêncio, o sorriso satisfeito no rosto do rico começou lentamente a desaparecer quando a empregada disse de repente:
— Oui, bien sûr. J’ai tout noté.
— No nosso restaurante há todos os pratos que pediu.
— Mais ils ne sont pas destinés à des gens aussi méprisables que vous.
— Je vous demande de quitter la salle immédiatement, sinon j’appelle la sécurité.
Fez uma breve pausa e acrescentou na sua língua materna:
— Recusamos servi-lo. Por favor, saia do restaurante.
Gabriel levantou-se de repente, o rosto cheio de raiva.

— Quê?! Eu vou processar-vos! Ao menos sabem com quem estão a falar?!
A amante olhava para eles, perdida, sem perceber francês nem o que tinha acabado de acontecer.
Sofia sorriu ligeiramente, quase imperceptivelmente.
— Bonne soirée, disse com calma.
— Há câmaras por todo o lado aqui, acrescentou. — Toda a gente vai saber como se comportou.
Depois virou-se e foi embora, deixando o rico de pé no meio da sala, sob os olhares de todos os que acabavam de ver que o dinheiro não protege da humilhação.







