Na esquadra, troçaram de um senhor de oitenta anos e nem sequer apresentaram a sua queixa. Mas os polícias não faziam ideia de quem era realmente aquele idoso, nem do que aconteceria quando o chefe da esquadra entrasse na sala.

HISTÓRIAS DA VIDA

Na esquadra, troçaram de um senhor de oitenta anos e nem sequer apresentaram a sua queixa. Mas os polícias não faziam ideia de quem era realmente aquele velho, nem do que aconteceria quando o chefe da esquadra entrasse na sala.

O velho acordou a meio da noite e encarou a escuridão. Eram duas da manhã. Lá fora, estava tudo escuro, mas os vizinhos ainda faziam barulho. Vozes podiam ser ouvidas; um homem falava alto, depois uma mulher começou a rir. A música estava a tocar muito alto.

O velho tinha quase oitenta anos; o seu coração estava a falhar, mas a sua audição ainda era muito fraca. Vestiu o seu velho robe e saiu lentamente do apartamento, dirigindo-se para a casa ao lado.

O velho tocou à campainha.

Alguns segundos depois, a porta abriu-se e uma jovem apareceu à entrada. Maquilhagem carregada, uma garrafa na mão, cheiro a álcool.

“O que é que queres, velho?”, perguntou ela preguiçosamente.

“Já são duas da manhã. Não consigo dormir. Estás a fazer muito barulho.”

A jovem revirou os olhos e gritou para dentro do apartamento:

“Está a ouvir isto? O velho está a queixar-se de novo!”

Das profundezas do apartamento surgiu o seu novo companheiro. Enorme, com um olhar pesado e uma barriga de cerveja.

“Qual é o problema?”, ironizou. “Toma uns comprimidos e vais dormir.”

A mulher soltou uma gargalhada e o homem bateu com a porta na cara do velho.

O velho ficou parado no patamar por mais alguns segundos. Já tinha chamado a polícia antes, mas quando os agentes chegavam, os vizinhos geralmente já se tinham acalmado. No andar de baixo vivia um casal de idosos que mal conseguia ouvir alguma coisa, e o porteiro do prédio simplesmente encolheu os ombros e aconselhou-os a “resolverem isso”.

O velho voltou para o seu apartamento, tomou os seus medicamentos e foi para a cama.

Quando finalmente adormeceu, as memórias do passado ressurgiram diante dos seus olhos.

Ele e a sua mulher estavam sentados na cozinha. O seu único filho estava parado perto da janela, explicando que tinha sido aceite numa academia militar.

“Filho, o serviço militar é perigoso. Talvez devesse pensar nisso?”

Mas depois o velho disse algo mais.

“Devia orgulhar-se disso. Um homem a sério deve servir o seu país.”

Deu um toque no ombro do filho e proferiu palavras que, durante muitos anos, o iriam perseguir.

“O nosso avô era um herói. E tu também serás.”

O sonho terminava sempre da mesma maneira.

Um corredor cinzento. Um soldado à porta. Palavras calmas dizendo que o seu filho tinha morrido numa missão especial. O grito da esposa, a ambulância e o vazio.

O velho acordou, respirando com dificuldade. Vinte anos tinham passado, mas a culpa nunca o abandonara. Muitas vezes pensava que merecia a sua vida solitária e as noites em branco.

Mas dois dias depois, a situação repetiu-se.

O velho não aguentou mais e decidiu ir pessoalmente à esquadra.

Apresentou queixa, mas o jovem polícia de serviço mal o ouviu. Quando o homem estava prestes a sair, o polícia simplesmente amassou o papel e deitou-o para o lixo.

Ao ver isto, o avô exigiu que a sua queixa fosse registada, mas os polícias apenas se irritaram.

Pensavam que estavam a lidar com um velho pobre e comum. Mas não faziam ideia de quem aquele homem era realmente ou do que lhes aconteceria quando o chefe da polícia entrasse na sala.

“Vá para casa, avô. O senhor precisa de um médico.”

O velho bateu com a palma da mão no balcão.

“Não vou a lado nenhum! Vou esperar pelo chefe!”

Nesse instante, uma dor aguda atravessou-lhe o peito. Cambaleou e agarrou o coração.

Os polícias, assustados, sentaram-no num banco.

O velho tirou alguns comprimidos do bolso interior, mas juntamente com eles caiu uma fotografia antiga no chão.

Nesse momento, o chefe da polícia saiu da sua sala. Pegou na foto e, de repente, paralisou.

Na fotografia estava um jovem tenente.

“Quem é este?”, perguntou ele suavemente.

“Meu filho.”

O corredor ficou em silêncio.

O chefe ergueu lentamente os olhos para o velho. A dor transpareceu no seu olhar.

“Este é o tenente… aquele que nos salvou durante a guerra.”

Ajoelhou-se lentamente diante do velho.

“Atirou-se sobre uma granada para nos proteger. Éramos dez. Estamos todos vivos só por causa dele.”

Os polícias permaneceram em silêncio. Diante deles estava o pai de um herói, e eles tinham-no tratado assim.

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