Para garantir a herança, as noras abandonaram a sogra cega numa floresta remota, na esperança de que ninguém a encontrasse: a velha já pressentia que o seu fim estava próximo quando uma matilha de lobos a cercou, mas o que os lobos fizeram a seguir foi mais terrível do que qualquer pesadelo.

HISTÓRIAS DA VIDA

As noras, para obterem a herança, abandonaram a sogra cega numa floresta remota, na esperança de que ninguém a encontrasse: a velha já pressentia que o seu fim estava próximo quando uma alcateia de lobos a cercou, mas o que os lobos fizeram a seguir foi mais terrível do que qualquer pesadelo.

As noras decidiram livrar-se da sogra cega para ficar com a herança e levaram-na para uma floresta remota, convencidas de que ninguém a encontraria. Tinham a certeza de que a mulher não iria perceber nada, uma vez que era cega de nascença. Mas esqueceram-se de um pormenor: ao longo dos anos passados ​​na escuridão, a sua audição e intuição tinham-se aguçado.

Após a morte do marido, todos os bens passaram para ela: a casa, as contas, as terras. E foi precisamente a partir deste momento que a atitude das noras se tornou fria e hipócrita.

Nesse dia, disseram que levariam a velha a passear, para que apanhasse um pouco de ar fresco e espairecesse. A sogra entrou no carro em silêncio, mas o coração apertou-se de preocupação. A viagem era demasiado longa e nenhum som familiar se ouvia ao redor.

Quando o carro parou bruscamente, ela enrijeceu. A porta do passageiro abriu-se de repente e ela foi puxada para fora com força. Sob os seus pés, sentiu folhas e ramos.

“Estamos aqui. Fica aqui. Ninguém te vai encontrar mesmo”, sussurraram as enteadas com crueldade.

A porta bateu com força. O motor roncou. O carro arrancou.

A velha mulher permanecia sozinha no meio da floresta, durante a noite. O vento cortava-lhe os ossos, os pés descalços dormentes de frio. Ruídos estranhos surgiam à sua volta: ramos estalando, farfalhando. Então, ela ouviu um uivo. Primeiro à distância. Depois, mais perto. Ainda mais perto.

O seu coração batia tão forte que parecia que toda a floresta o ouvia.

Os passos tornaram-se distintos. Muito perto. Na sua face, sentiu um hálito quente e húmido. Ela compreendeu: eram lobos, e já estavam ali.

A velha mulher despediu-se da vida nos seus pensamentos e começou a rezar baixinho, aguardando o fim. Mas, naquele preciso momento, os lobos fizeram algo que a aterrorizou.

Em vez de uma dentada, sentiu algo quente a pressionar a sua lateral. Depois, outro corpo. Os lobos cercaram-na e deitaram-se bem perto dela, como que para a proteger do vento. A sua pelagem espessa aqueceu-a, e a sua respiração pesada já não parecia assustadora.

Durante toda a noite, permaneceram perto dela.

De manhã, a velha acordou com o calor de um raio de sol. A floresta estava silenciosa. Os lobos tinham ido embora. Levantou-se cautelosamente, tacteou o caminho até um tronco de árvore e avançou lentamente, agarrando-se à casca e aos ramos.

Caminhou durante muito tempo, tropeçando e caindo, mas sem parar. Ao cair da noite, sentiu o asfalto liso debaixo dos pés. Os carros passavam e, finalmente, alguém reparou na velha com o seu vestido leve no meio da estrada.

As pessoas pararam e resgataram-na.

E aqueles que a tinham abandonado para morrer na floresta por causa da herança nem sequer podiam imaginar que, naquela noite, as feras selvagens se tinham revelado mais humanas do que eles.

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