Nesse dia, como todos os anos, fui ao túmulo da minha mulher e vi uma criança descalça a dormir tranquilamente sobre a lápide. Acordei-a com cuidado, com medo de a assustar, e quando compreendi quem era e porque estava ali, fiquei completamente comovido.

HISTÓRIAS DA VIDA

Nesse dia, como todos os anos, fui ao túmulo da minha mulher e vi uma criança descalça a dormir sobre a lápide. Acordei-a com cuidado, com medo de a assustar, e quando compreendi quem era e porque estava ali, fiquei completamente comovido.

Nesse dia, como todos os domingos, fui ao cemitério, à campa da minha mulher. Fazia-o há muitos anos, sem nunca faltar a uma única visita. Era o único momento em que podia estar sozinho com as minhas memórias.

Na minha mente, o terrível dia em que o hospital ligou e me disse, com voz rouca, que ela já não estava lá. Desde então, tenho estado sozinho.

Percorri o trilho familiar entre os túmulos, quase sem olhar em redor. Conhecia aquele lugar de cor. Por isso, quando vislumbrei uma figura na lápide da minha mulher à distância, pensei, a princípio, que devia estar enganado.

Cheguei a parar. Imaginei se não teria confundido os túmulos. Mas não. Eu vinha aqui todas as semanas; não podia haver engano.

Na lápide da minha mulher jazia um rapaz, com cerca de seis ou sete anos. Estava encolhido, como se tivesse frio. Estava descalço, com os pés sujos, as roupas velhas e molhadas. Era evidente que a criança não tinha ido ali parar por acaso.

Aproximei-me, tentando não o assustar. Passou-me pela cabeça que era provavelmente uma criança sem-abrigo que simplesmente encontrara um lugar para dormir. Toquei-lhe suavemente no ombro.

O menino abriu os olhos e olhou para mim apavorado. Então, inesperadamente, disse:

“És tu? Estou à tua espera há vários dias.”

Fiquei atónito.

“Como assim? Quem é você? E o que está a fazer no túmulo da minha mulher?”

Então, o menino sem-abrigo contou-me algo que me deixou completamente horrorizado.

Acontece que, durante a minha visita anterior, quando me baixei para colocar flores na campa, a carteira caiu-me do bolso. Eu não tinha percebido. O menino, no entanto, tinha visto. Correu atrás de mim, chamando pelo meu nome, acenando com os braços, mas eu entrei no carro e fui-me embora.

Então, decidiu esperar.

Ele vinha cá todos os dias. Sentava-se ao meu lado. Dormia sobre a lápide. Esperava que eu voltasse para me devolver o que era meu.

“Mas tinha dinheiro lá dentro…” disse eu baixinho. “Podia ter comprado algo para comer.”

O menino encolheu os ombros.

“Porquê? Esse dinheiro não é meu. E não se deve levar o que pertence aos outros.”

Naquele momento, compreendi que não podia simplesmente ir embora.

Eu ajudei-o. Paguei os seus estudos. Mais tarde, darei um emprego quando for mais velho. Porque pessoas assim são raras. Honestas. Genuínas.

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