Eram 18h02 daquela quinta-feira. Tinha acabado de chegar do trabalho, cansada, com os braços cheios de sacos de compras. O sol começava a pôr-se e a minha mente estava noutro lugar, entre as contas e o jantar para preparar.
Depois alguém tocou a campainha. Duas vezes.
Quando abri a porta, ao princípio pensei que se tratava de uma alucinação. Um velho, com os cabelos grisalhos despenteados, a pele marcada pelo tempo e pelas dificuldades. Os seus olhos, no entanto, eram familiares.
“Minha filha! Voltei! Leve-me para casa”, disse com a voz trémula.

Fiquei ali paralisada. O meu coração começou a bater tão forte que pensei que ia explodir.
Aquele rosto… como poderia esquecê-lo? Mesmo depois de 25 anos de ausência. Mesmo depois de todas as noites a perguntar-me porquê.
“Pai?”
Ele assentiu. Um sorriso tímido surgiu-lhe nos lábios.
Fechei a porta atrás de mim, como se aquele simples gesto pudesse interromper a enxurrada de memórias que voltavam ao de cima.
“Tu… Onde estavas? Porque é que nunca mais me tentaste ver?”
“Cometi erros. Muitos. Não me orgulho. Mas pensei em ti todos os dias. Todos os anos. Só estava à espera que a coragem voltasse.”

Ele estendeu a mão trémula. Não a segurei. Ainda não.
“Queres que te leve a casa?”
“Não tenho para onde ir. Não estou à espera de nada… apenas de uma oportunidade para falar contigo.”
Olhei para ele durante muito tempo. Uma parte de mim queria gritar. A outra parte queria chorar. Pensei na mamã, no seu olhar quando falava dele com uma dor oculta.
Mas também pensei em mim, na criança que era, naquela que teria dado tudo para voltar a ver aquele rosto um dia.

Abri então a porta do meu carro.
“Entre. Mas não será fácil.”
“É tudo o que peço”.
E assim o passado voltou a bater-me à porta… com rugas, silêncios e, talvez, uma segunda oportunidade.







