Depois de limpar uma campa completamente abandonada no cemitério, vi algo da minha janela na manhã seguinte que me fez literalmente VOAR…

HISTÓRIAS DA VIDA

Olá mãe! Ah, imaginem o que me aconteceu! – Parte 1
“Olá, mãe! Ah, imagina o que te vou dizer agora! – disse Kata entusiasmada, limpando o pó da lápide acabada de lavar e sentando-se no banco junto à campa da mãe.

“Estou à espera para te contar desde ontem!” “Aconteceu-me algo incrível na biblioteca. Imaginem, conheci a Vera! Sim, com esta Vera, que foi nossa colega de turma no quinto ano. Provavelmente lembram-se disso. Nessa altura, os pais dele mudaram-se para Praga porque o pai recebeu uma missão importante.

– Correspondemo-nos durante algum tempo, depois perdemos completamente o contacto… e agora ele está aqui! No início, nem o reconheci. Mas quando ele disse o seu apelido, algo fez clique dentro de mim e todas as minhas memórias de infância voltaram ao de cima.

«Tenho a certeza de que também te lembras disto, mãe.»Um dia, enquanto brincávamos às casinhas, partimos sem querer o teu vaso de vidro vermelho favorito. Brincámos às escondidas. Lembras-te? Estávamos tão assustados com a tua reação que não nos atrevemos a admitir durante dias.

Kata sorriu como se o medo da infância ainda a afetasse. Aproximou-se da lápide e alisou a foto da mãe na moldura.

– A Vera contou-me que finalmente se estabeleceram definitivamente em Praga. Estudou lá, depois foi para a universidade e agora trabalha para uma empresa de design. Tem marido e dois filhos, cada um com dez e onze anos. Eles são tão fofos! Mostrou-me as fotos que tinha no telemóvel.

Kata sorriu e viajou mentalmente para trás no tempo.

– E imagina, mãe, a família voltou toda para a Hungria há um ano! É simplesmente incrível como a vida une as pessoas de formas tão estranhas. É como se tivesse sido transportado para a minha infância… quando ainda eras vivo.

O vento despenteou suavemente o cabelo de Kata e com ele a foto do túmulo da sua mãe. Kata deu um passo em frente e ajustou a imagem.

– Mas agora tenho de me despachar, mãe. Prometo voltar no próximo sábado! Se não for embora agora, vou perder o comboio.

Kata olhou para o relógio: ainda faltavam quarenta minutos para a partida. Como demoraria vinte minutos a chegar à estação, decidiu que ainda ia a tempo. Voltou a olhar para o túmulo: estava limpo, a imagem estava perfeitamente alinhada, as flores eram frescas. Isso acalmou-o.

Na foto, a sua mãe sorri-lhe quando era jovem. Kata lembrava-se bem desta foto: tinha sido tirada no mesmo ano em que ela foi para a escola. O fotógrafo que tirou as fotografias aos alunos da primeira classe ficou encantado com a beleza da mãe e tê-la-ia convidado para sair se não tivesse descoberto que já era casada.

– Claro que escolhi esta foto para a lápide, não podia ser de outra forma! – Kata murmurou para si mesma.

Depois olhou para o relógio e, por um momento, o tiquetaque parou: tinham passado dez minutos! Caminhou em direção à saída do cemitério, mas depois de dar apenas alguns passos, de repente tropeçou e caiu.

– Ai, merda! exclamou.

– Menina, a senhora não está a olhar para os seus pés? – disse uma voz masculina.

Acima dele estava um homem com roupa de trabalho e com um forte cheiro a álcool. Estendeu a mão, mas Kata simplesmente virou a cabeça.

– Obrigado, consigo desenrascar-me sozinho.

Com os joelhos doridos, arrastou-se até ao banco mais próximo. Pegou numa toalha de papel e numa garrafa de meio litro de água mineral e lavou o sangue e a lama do joelho. O homem continuou a encará-la e depois voltou lentamente ao seu trabalho: limpar um túmulo abandonado que antes tinha passado completamente despercebido a Kata.

Aproximou-se dela com curiosidade.

– Desculpe, este é o túmulo de algum parente? perguntou cautelosamente.

O homem franziu o sobrolho.

– Não, foi o diretor do cemitério que me perguntou. Um familiar distante ligou, mas ele mora longe e não pode vir. Então vou fazer isso.

Kata assentiu e, depois de limpar a ferida, pegou no telemóvel e tirou uma fotografia ao túmulo. O nome Anna Péterné Tóth (nascida Iszaeva) foi gravado na pedra, mas a data de nascimento e morte não foram indicadas.

Ao sair, Kata murmurou para si mesma:

– É estranho que este túmulo esteja tão deserto. E, no entanto… houve algo que me cativou.

Claro que perdeu o comboio. Teve de esperar uma hora pelo próximo. Comprou uma garrafa de água mineral no posto e procurou um banco com sombra. Sentou-se, pegou no telefone e digitou no motor de busca: Anna Péterné Tóth Iszaeva.

Kata escreveu “Anna Péterné Tóth Iszaeva” no telemóvel e tentou procurá-lo em algum tipo de base de dados. Era movido pela curiosidade, não tinha segundas intenções. Ele simplesmente não conseguia tirar aquele túmulo da cabeça.

Apenas dois nomes foram encontrados nos resultados. Uma delas era uma influencer de vinte anos que nada tinha a ver com a lápide negligenciada. Por outro lado… o momento era oportuno.

Anna Péterné Tóth, nascida a 1 de março de 1906. Faleceu em 1989 com 83 anos. Mais conhecida por Anna Iszaeva, cantora húngara-romena.»

– Cantor? Kata levantou as sobrancelhas. – Nem ouvi falar disso…

Cada vez mais surgiam informações: artigos de jornais, imagens de arquivo. Numa delas, Anna estava em palco como uma jovem mulher com um vestido branco como a neve, noutra como uma mulher mais velha com a sua pequena filha – talvez a sua neta? – e por fim, podemos vê-lo numa terceira foto com o seu filho e a sua filha. Traços faciais delicados, cabelo escuro, silhueta etérea. Uma verdadeira diva.

Kata suspirou amargamente. Quando se lembrou do seu próprio reflexo, não pôde deixar de notar a diferença. Já tinha excesso de peso na adolescência e, apesar das suas tentativas de perder peso com Vera, uma vez desmaiou a meio de uma aula de matemática. O rosto assustado da sua mãe ficará para sempre gravado na sua memória.

– Não me torturei mais. Mas agora… sinto que falta qualquer coisa.

Quando chegou a casa, nessa noite, já eram sete horas. Foi bom ele não ter tido de trabalhar no dia seguinte, afinal. Aqueceu um pouco de massa, comeu algumas almôndegas do dia anterior, depois sentou-se em frente ao computador e voltou a abrir as páginas sobre Anna.

Como é possível que o túmulo de uma mulher tão famosa esteja tão negligenciado? Onde está a sua família? Ou… talvez não esteja lá mais ninguém?

A noite passou sem descanso e a semana seguinte pareceu arrastar-se. Finalmente chegou sábado e Kata regressou ao cemitério. Desta vez, trouxe consigo algumas mudas de flores – estava a pensar não só na sua mãe, mas também no túmulo de Anna.

“Bem, mãe, hoje vais colher arbustos!” ” disse com um sorriso enquanto preparava as ferramentas.

Depois de terminar o túmulo da sua mãe, regressou ao túmulo de Anna. As ervas daninhas tinham desaparecido, mas continuavam de pé, sinistras, num silêncio quase mortal. Kata esfregou cuidadosamente a pedra até aparecerem as datas gravadas: 1906–1989.

“Então é mesmo você…”

Ajoelhou-se e plantou cuidadosamente as pequenas flores coloridas. Não sabia exatamente porquê, mas sentia que lhe devia isso. Depois deu alguns passos para trás e olhou para o seu trabalho. Agora o túmulo ganhou vida: erva verde vibrante, flores, pedra limpa.

Seis meses se passaram.

Durante seis meses, Kata regressou ao cemitério quase todos os sábados, incluindo aos túmulos da mãe e de Anna. Cuidou dos dois com o mesmo carinho. Mesmo quando chegou a altura de substituir as coroas, comprou duas.

Numa tarde de sábado, algo de estranho aconteceu.

– Kariiiinaaaa! – ouviu-se uma voz.

Kata gelou. Era como se… como se a sua mãe estivesse a falar. Mas isso é impossível.

“Mãe?” “Não é possível…

Mas a voz voltou a ouvir-se, desta vez mais perto.

“Kariinácska, és tu?” » É tão bom voltar a vê-lo! Gostaria de vos apresentar uma pessoa… olhem, aqui ao meu lado está a minha amiga – a Anna.

Kata estava a sonhar.

Não havia dúvidas. A paisagem do cemitério à sua volta desapareceu de repente, como se tivesse caído num mundo de sonho. A sua mãe estava ali, jovem e sorridente, ao seu lado outra mulher com um vestido branco como a neve – Anna.

“Obrigada por cuidar de mim”, disse a mulher desconhecida, mas familiar. “Há muito tempo que ninguém se preocupa comigo como tu.”

“Só tive pena do teu túmulo. Estava vazio, deserto…”, murmurou Kata, confusa.

“Foi por isso que te enviei um presente.” – Anna tocou suavemente no ombro de Kata.

– Um presente?

– Sim. Um marido. Duas crianças. E uma casa de praia.

“É uma piada de mau gosto?” – temeu Kata. “Ou… já não estou viva?” “Estou morto?

” Para iluminar! “A tua hora ainda não chegou. Mas você merece a felicidade. Vou embora agora. Ame, viva e seja feliz.

A sua mãe e Anna desapareceram lentamente na escuridão. Kata gritou então uma última vez:

“Mãe!” Espere! Não vá…

Então, sentou-se de repente na cama. Ele engasgou-se. O pijama estava encharcado de água, o coração batia forte como se tivesse corrido uma maratona. Ficou ali sentado por um tempo, depois entrou na banheira e lavou o sonho.

“Do que se tratava?” “Será que sonhei? Mas foi tão… real.

Ele pensou nisso a semana toda.

Depois chegou o sábado seguinte. Kata foi ao cemitério como de costume. Mas quando chegou ao túmulo de Anna, viu algo chocante:

Um lindo ramo de flores frescas decorava o túmulo.

“Como é que isto chegou aqui?” “Quem o trouxe aqui?” – Kata murmurou, olhando em redor.

Ele não viu ninguém. Sentou-se e começou a contar à mãe sobre a sua semana, como de costume. Estava tão perdida nos seus pensamentos que não reparou num homem a aproximar-se dela.

– Com licença, pode dizer-me onde posso encontrar água para colocar estas flores? gritou o homem.

– Com licença, pode dizer-me onde posso encontrar água para colocar estas flores? perguntou o homem, algo confuso.

Sem pensar duas vezes, Kata entregou-lhe a sua própria garrafa.

“Aqui, não hesite em usá-lo. Acabei de o regar.

O homem assentiu agradecido, depois cortou habilmente a parte superior da garrafa com uma faca e usou-a como um vaso improvisado. Juntos, foram até à fonte mais próxima para a encher de água.

“OBRIGADO!” Ele sorriu para ela enquanto caminhavam de volta para os túmulos. – O meu nome é Victor. O túmulo ali… é da minha avó. Ana Pedro Tóth.

Kata gelou.

“A sua avó?” ” sussurrou, olhando para o túmulo.

– Sim. Admito que já não vinha aqui há muito tempo. Eu moro longe, perto da praia. Mas agora… agora decidi fazer as pazes da melhor forma possível.

Kata olhou para ele e depois falou suavemente.

“Estou a tratar do túmulo há seis meses. Vi o quão abandonado estava e… não pude deixar de o ajudar. Acho que a sua história me tocou.

Viktor não disse nada durante alguns segundos. Depois assentiu lentamente.

“Muito obrigado.” Sério. Nem sei o que dizer… Fazê-lo completamente desconhecido… é algo extraordinário.

A partir desse momento, algo mudou.

Semana após semana, encontravam-se cada vez mais no cemitério. No início, apenas trocaram algumas frases, mas depressa surgiram longas conversas, seguidas de café, telefonemas e passeios noturnos. A própria Kata não sabia quando esperaria uma mensagem de texto de Viktor. Só percebeu que tinha saudades dela quando não veio.

Seis meses se passaram.

Numa noite chuvosa de sexta-feira, Viktor estava à porta de sua casa com um ramo de flores.

– Kata… quero perguntar-te uma coisa.

“Sim?” – perguntou Kata, torcendo os dedos nervosamente.

“Vem ter comigo.” “Vem viver comigo. Comigo, à beira-mar. Vamos construir algo novo juntos.

Kata mal podia acreditar no que ouvia. No início, riu sozinho.

“Isto é uma piada?” “Achas que eu só…

«A sério. Acho que sim, a sério. Sabes o que a tua mãe disse no teu sonho…? Que vais receber um presente. Bem, é isso que eu quero ser.

Foi quando Kata derreteu.

E sim, ele disse que sim.
Algumas semanas depois, embarcaram num avião. Kata viu o mar pela primeira vez. Enquanto olhava pela janela do avião, o azul do oceano transportou-o para um mundo de conto de fadas. Um barco branco flutuava na água e, em direção à costa, uma bela casa aninhada na colina.

“É só isso?” “Esta casa? – perguntou Kata, emocionada.

“Isto é seu.” NOSSO. Onde será feliz. Onde iniciamos uma nova vida.

No jardim da casa, um menino estava sentado a ler para um cão. O cão observou, o menino sorriu e depois saltou:

– Pai! Você veio!

O rapaz – Antika – era filho de Viktor. Kata aproximou-se dele lentamente.

– Bom dia. Posso dar-te um abraço?

Antika assentiu e abraçou-o.

O cão Baikal, correndo pelo quintal, abanava alegremente a cauda. A luz do sol brilhava sobre eles.

E um ano depois…

A pequena Antika ficou ao lado de Kata e olhou para o carrinho.

“E quando é que a minha irmã vai crescer, Ancsika?” »

“Mais cedo do que pensa. »

Kata sorriu e ajustou a manta sob a qual a menina estava deitada. Pensou em tudo: no cemitério, nos túmulos, no sonho, no presente.

“Mãe… vês isto, não vês?” Está tudo bem. OBRIGADO. Obrigado por enviar.

E à noite, quando todos dormiam, Kata voltou a sonhar.

A mãe estava diante dele, com Anna ao seu lado.

“Minha querida menina… estamos felizes por estares feliz. »

Kata apenas sorriu, com as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto. A mamã e a Anna desapareceram lentamente na luz, de mãos dadas, mas o seu sorriso permaneceu para sempre no seu coração.

 

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