Em “A Mulher em Mim”, a menina dos olhos da América oferece inúmeras revelações sobre a sua ascensão meteórica e os seus treze anos sob tutela, algo único na história do showbiz. Uma coragem extraordinária!
O lançamento simultâneo das memórias de Britney Spears em 26 países é um grande acontecimento. E não apenas para os seus milhões de fãs, que a viram pela última vez em palco em 2018. Publicado na terça-feira, “The Woman in Me”, repleto de anedotas, reconta o lado obscuro de Hollywood e das grandes editoras discográficas. O sexismo, a misoginia e o bullying constante são destaques. Natalie Portman, Ryan Gosling, Christina Aguilera e Colin Farrell são destaques. Justin Timberlake surge como uma personagem desprezível que a obriga a abortar, abandona-a por mensagem de texto e descreve-a como uma vagabunda para a sua própria glória. Tal como Michael Jackson, Britney Spears personifica toda a hipocrisia e puritanismo do outro lado do Atlântico. A menina dos olhos da América vivia com um companheiro, mas esperava-se que permanecesse virgem. Ela está a ser arrastada pela lama. “Tinha uma tendência natural para a ansiedade; tornei-me socialmente fóbica”, diz ela.
Este livro, escrito com a ajuda de um autor não divulgado, vai muito além das memórias de uma estrela destruída pelo sistema. Britney Spears gostaria de ter a força de Madonna “que faz o que quer”, a “formidável inteligência” da actriz e produtora Reese Whiterspoon, a “habilidade” de Jennifer Lopez e a “rápida resposta” de Dolly Parton. “Continuei a ser uma boa rapariga do sul dos Estados Unidos, pronta para fazer tudo para agradar, um pouco estúpida, convencida de que tudo o que me acontecia era culpa minha”, confidencia. “Os meus pais sempre me consideraram um falhado. Eu era passiva e muito condescendente.” Ao terminar este livro, só podemos sentir empatia.

Cabeça rapada por desespero
A sua infância numa família branca e pobre da Louisiana, no coração do Bible Belt, onde o pai bebia e a mãe gritava, é bem descrita. “Aqui, toda a gente vai à igreja e sabe manusear uma arma.” Tal como Elvis Presley, que cresceu no vizinho Mississippi cinquenta anos antes, Britney Spears provou ser uma trabalhadora esforçada. Desde a descoberta do canto gospel até ao lançamento do seu primeiro êxito, “Baby One More Time”, em 1998, a sua ascensão foi meteórica. Tinha dezasseis anos e tudo já estava a acontecer rápido demais. “Nas entrevistas, nunca tive direito às mesmas perguntas que um homem”, lamenta. Em 2000, quando “Oops I Did It Again” foi lançado, as coisas eram piores. “Se eu fosse sexy, era estúpida; se eu fosse uma bomba, não tinha talento.”

O que lhe aconteceu foi extraordinário. Casou com o bailarino Kevin Federline e, após o nascimento dos seus dois filhos, nascidos em rápida sucessão em 2005 e 2006, e a depressão pós-parto – “na altura, pouco se falava sobre a saúde mental das jovens mães” –, divorciou-se. Em 2007, quando a sua querida tia morreu, estava sozinha e perdeu o equilíbrio. “Era jovem, cometi erros. Mas queria ser uma boa mãe. Nunca consumi drogas pesadas, apenas bebia ocasionalmente e tomava Prozac.” Ela ainda tomava Adderall, um medicamento à base de anfetamina proibido em França para tratar o défice de atenção. Quando foi proibida de ver os filhos de cinco e dezassete meses, rapou a cabeça nessa mesma noite, perturbada pela dor. Este será o início de uma descida ao inferno única na história do showbiz.

Treze anos de pesadelo sob tutela
Metade destas 285 páginas descreve os abusos da tutela nos Estados Unidos. Dos 27 aos 40 anos, a “queridinha da América” foi despojada de todos os seus direitos. Numa decisão judicial normalmente reservada a idosos, perdeu o controlo da sua vida. Telefones sob escuta, sob escuta em casa, internada num hospício por desentendimento durante os ensaios, DIU obrigatório, envelopes pré-preenchidos de medicamentos, obrigação de informar os seus guarda-costas duas horas antes de sair de um quarto, proibida de escolher as suas refeições… Nada se poupa. Sem surpresa, o sistema judicial americano encontra-a sob a influência do pai e da companheira deste, Louise Taylor. Britney Spears grava álbuns e faz espectáculos grandiosos. Ela ganha dezenas de milhões de dólares por eles, mas eles só lhe pagam 2.000 dólares por semana. Com base em que provas poderia o sistema judicial californiano ter estado tão errado durante treze anos? É difícil saber, uma vez que Britney Spears não diz nada sobre os documentos que serviram de prova. O pior é que o seu guardião, aquele que obtém os direitos sobre a sua fortuna avaliada em 60 milhões de dólares e a sua vida, é o seu pai. Jamie Spears, no entanto, é conhecido por ser um alcoólico violento e um empresário incompetente. Um homem que sempre aterrorizou a filha. Uma cena do livro é particularmente arrepiante: “Agora, Britney Spears, sou eu”, diz-lhe.
#FreeBritney
Em 2020, suspeitando que o seu ídolo estava a ser mantido refém contra a sua vontade, os seus fãs lançaram com sucesso a campanha #FreeBritney. “Se soubessem o quanto este movimento significou para mim”, agradeceu a estrela. O New York Times publicou uma série de artigos aprofundados e lançou o notável documentário Framing Britney Spears na Amazon. Britney Spears não disse nada sobre tudo isto até 21 de junho de 2021. Nesse dia, num depoimento de 23 minutos perante os jurados, detalhou os abusos que tinha sofrido. O escândalo foi enorme. Em novembro de 2021, recuperou a liberdade. Desde então, o Senado tem vindo a trabalhar num projeto de lei para alterar as regras das tutelas.







