A menina passou o voo inteiro a dar pontapés no meu assento, enquanto a mãe apenas olhava para o telemóvel — então decidi que já tinha aguentado o suficiente

HISTÓRIAS DA VIDA

A menina passou o voo inteiro a dar pontapés no meu assento, enquanto a mãe apenas olhava para o telemóvel — então decidi que já tinha aguentado o suficiente

O voo internacional deveria durar quase seis horas.

Escolhi de propósito um lugar junto à janela, descarreguei alguns filmes, levei um livro e contava passar a viagem tranquilamente.

Atrás de mim estava sentada uma jovem mulher com uma menina de cerca de sete anos.

Durante a primeira hora, tudo correu normalmente. A criança via desenhos animados, a mãe mexia no telemóvel, enquanto eu lia e, de vez em quando, olhava para as nuvens.

Mas depois a menina começou a ficar entediada.

Primeiro, colocou o tablet quase no volume máximo. Os passageiros começaram a virar-se, mas a mãe nem sequer levantou os olhos.

Passado algum tempo, senti uma pancada nas costas do meu assento.

Bum.

Pensei que tivesse sido sem querer.

Um minuto depois — outra vez.

Bum.

Depois, as pancadas começaram a repetir-se a cada poucos segundos.

Depois da quinta vez, virei-me.

— Desculpe, poderia pedir à sua filha para não dar pontapés no meu assento?

A mulher afastou os olhos do telemóvel, contrariada.

— Ela é uma criança. Aguente um pouco.

— Mas o assento está sempre a tremer.

— Não é nada. Daqui a pouco cansa-se.

E voltou novamente ao ecrã.

O mais surpreendente aconteceu depois.

A menina olhou diretamente para mim, sorriu com ar provocador… e deu de propósito um pontapé ainda mais forte no assento.

Foi então que percebi: o problema já não era a criança.

Ela simplesmente sabia muito bem que a mãe lhe permitiria tudo.

Eu não queria fazer uma cena a dez mil metros de altitude, por isso decidi agir de outra forma.

Carreguei no botão para chamar a comissária de bordo.

Quando ela chegou, expliquei calmamente a situação.

A comissária falou com a mãe e pediu à menina que parasse.

Durante alguns minutos, ficou tudo em silêncio.

E depois…

Bum.

Ainda mais forte.

Bum.

Agora era evidente que a menina estava a fazer aquilo de propósito.

Desta vez, a comissária viu tudo com os próprios olhos.

Ficou algum tempo a observar em silêncio e depois aproximou-se da mulher.

— Por favor, reúna os seus pertences.

A mãe finalmente pousou o telemóvel.

— O quê?

— Vamos mudar a senhora e a sua filha de lugar.

A mulher indignou-se imediatamente:

— Porquê nós? Eu escolhi estes lugares de propósito!

— Porque a sua filha continua a incomodar os outros passageiros apesar de vários avisos.

— Ela é apenas uma criança!

A comissária respondeu calmamente:

— É precisamente por isso que a responsabilidade pelo comportamento dela cabe ao adulto.

A mulher ficou em silêncio.

Dez minutos depois, foram transferidas para o fundo do avião, onde havia lugares livres junto de outras famílias com crianças.

Quando se afastavam, a menina já não sorria.

E, pela primeira vez durante todo o voo, a mãe parecia ter percebido que os outros não são obrigados a suportar tudo só porque ela não quer largar o telemóvel.

Finalmente, ficou silêncio na cabine.

Abri o meu livro.

Alguns minutos depois, um senhor idoso sentado do outro lado do corredor inclinou-se na minha direção e disse baixinho:

— Obrigado. Ela não estava a incomodar só a senhora.

Sorri.

Às vezes não é preciso gritar, discutir ou responder à grosseria com mais grosseria.

Basta estabelecer calmamente um limite.

E, se alguém continuar a ignorá-lo — deixar que as regras façam o resto.

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