Uma bailarina envergonhou-se do pai quando ele lhe trouxe os velhos sapatos diretamente para a sala… Mas mais tarde descobriu a que preço ele lhe comprara uns novos.

HISTÓRIAS DA VIDA

Uma bailarina envergonhou-se do pai quando ele lhe trouxe os velhos sapatos diretamente para a sala… Mas mais tarde descobriu a que preço ele lhe comprara uns novos.

A manhã de Anna começou com lágrimas e raiva.

Ela fazia ballet havia três anos e sonhava um dia subir a um grande palco. Mas, ao lado das outras meninas, sentia-se sempre desconfortável. Elas tinham fatos bonitos, penteados impecáveis e pontas caras. Anna tinha uns velhos sapatos de ballet gastos, que давно já tinham perdido a boa aparência.

— Pai, tenho vergonha de treinar com isto, disse ela. — Toda a gente se ri de mim.

O pai estava à porta com o casaco de trabalho. Trabalhava na construção civil, chegava tarde a casa, cansado, com as costas a doer e as mãos cobertas de calos.

— Filha, por agora não temos dinheiro, respondeu ele baixinho. — Mas vou arranjar uma solução. Prometo.

Anna não quis ouvir.

Num acesso de raiva, agarrou nos velhos sapatos e atirou-os contra o pai.

— Já estou farta de esperar!

Ele apanhou-os do chão em silêncio. Não a repreendeu. Apenas baixou os olhos.

Anna bateu a porta e foi para o treino, enquanto o pai ficou muito tempo na entrada com aqueles sapatinhos nas mãos. Depois levou-os consigo para o trabalho.

Na obra, o dia foi duro. Mas, na hora de almoço, o pai tirou os sapatos, limpou-lhes o pó, tratou com cuidado o tecido, colou as partes gastas e encontrou tinta dourada. Devagar, com cuidado, quase com uma esperança de criança, começou a pintá-los.

Ao fim da tarde, os velhos sapatos pareciam completamente diferentes. Não eram caros, mas tinham ficado limpos, luminosos e bonitos.

O pai sorriu pela primeira vez naquele dia.

Depois do trabalho, sem passar por casa, foi direitinho à escola de dança.

Na sala estava a decorrer o ensaio. As raparigas estavam à barra quando alguém reparou, junto à porta, num homem com roupa de trabalho empoeirada.

— Quem é aquele?
— Porque é que ele está tão sujo?
— Entrou aqui vindo da rua?

Anna virou-se e ficou paralisada.

À porta estava o pai dela. Cansado, sem jeito, com os sapatos nas mãos.

— Filha, disse ele baixinho, trouxe-te os sapatos. Olha, arranjei-os um pouco. Agora já podes apresentar-te.

Alguém soltou uma risadinha na sala. Depois riram-se os outros.

— É o teu pai?
— Que vergonha…
— Agora percebe-se por que tens coisas tão velhas.

O rosto de Anna corou. Sentiu tanta vergonha que não pensou nem no cansaço dele nem na sua bondade.

Arrancou-lhe os sapatos das mãos e atirou-os para o chão.

— Vai-te embora daqui, disse em voz alta. — Estás a envergonhar-me.

O pai empalideceu. Por um segundo, os lábios dele tremeram, como se quisesse dizer alguma coisa. Mas calou-se. Abaixou-se, pegou nos sapatos, pousou-os ao lado e saiu lentamente da sala.

Só quando a porta se fechou Anna sentiu um peso no peito. Mas o orgulho não a deixou correr atrás dele.

Na manhã seguinte, havia uma caixa em cima da cama.

Lá dentro estavam uns sapatos de ballet novos.

Verdadeiros. Lindos. Exatamente como ela sonhava.

Anna ficou radiante e correu logo para a apresentação. Nesse dia dançou melhor do que todas. Deram-lhe um diploma, elogiaram a sua técnica e disseram-lhe que tinha um grande futuro.

Todos aplaudiram.

Mas o pai não estava na sala.

Quando Anna voltou para casa, o telefone tocou. Informaram-na de que o pai estava no hospital. Na obra, ele passou mal. Durante vários dias seguidos, fizera turnos extra para lhe comprar os sapatos novos.

Anna sentiu que quase deixou de respirar.

Correu para o hospital em lágrimas. O pai estava ali, pálido, fraco, nada parecido com o homem forte que sempre carregara em silêncio o peso da vida deles.

Sentou-se ao lado dele e apertou-lhe a mão.

— Pai, perdoa-me, sussurrou. — Não tinha vergonha de ti… Tinha vergonha da pobreza. E eu devia ter orgulho em ti.

As lágrimas caíam-lhe na palma da mão.

Alguns minutos depois, o pai abriu os olhos. Viu-a, sorriu fracamente e apertou-lhe ligeiramente os dedos.

E então Anna percebeu o mais importante.

Os presentes mais valiosos nem sempre vêm em caixas bonitas.

Às vezes chegam com um casaco de trabalho empoeirado, com olhos cansados e mãos prontas a dar tudo pela felicidade do filho.

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