Sou veterinária, e as pessoas telefonam-me muitas vezes durante a noite. Estão convencidas de que, quando se tem um diploma, é suposto saber resolver tudo — desde “o gato espirrou” até “venham salvar o meu animal agora”.
Mas a Anna ligou durante o dia. E na voz dela havia um cansaço tão grande que parecia não dormir havia meses.
— Bom dia, é a clínica? Chamo-me Anna. Tenho uma consulta marcada… Tenho um problema com a minha gata. Ela não me deixa dormir.
A frase “a gata não me deixa dormir” pode significar muita coisa. Mas na voz dela não havia irritação — apenas preocupação.
A Anna chegou bem vestida, um pouco tensa. Tinha cerca de cinquenta e cinco anos, cabelo liso e um casaco da mesma cor que as botas. Segurava a transportadora com tanto cuidado como se lá dentro houvesse porcelana.

— Esta é a Luna, disse ela. — Foi o meu marido que escolheu o nome. Mas à noite ela não é Luna — é um despertador com garras.
Da transportadora olhavam para mim uns olhos grandes e tranquilos. Uma gata cinzenta e grande, com pelo espesso, sem um pingo de agressividade.
— O que se passa? perguntei.
A Anna suspirou fundo.
— Todas as noites, mais ou menos às três ou quatro da manhã, ela acorda-me. Primeiro toca-me suavemente na cara com a pata. Se eu não reajo, ela insiste mais. Pode morder-me a mão, puxar a manta. E não se acalma até eu me levantar e ir dormir para o sofá da sala. E assim que eu saio, ela deita-se na minha almofada e dorme até de manhã.
— Há quanto tempo isto acontece?
— Há cerca de três meses. Primeiro pensei que ela tivesse mudado de feitio. Depois pensei que fosse o stress. A psicoterapeuta disse que era insónia causada por stress e receitou-me calmantes… mas não melhorou.
A Luna estava sentada ao lado da dona, a observá-la sem desviar o olhar.
Examinei a gata: coração regular, respiração limpa, peso normal. Um animal perfeitamente saudável.
E nesse momento ocorreu-me, com um choque horrível, que o problema não era a gata. Nem de perto.
— Anna, perguntei com cuidado, como se sente quando ela a acorda?
Ela pensou.

— Mal. O coração dispara. A boca fica seca. Às vezes parece que não consigo respirar. Primeiro penso que a tensão está alta… ponho um comprimido debaixo da língua e vou para o sofá. Depois de um bocado, fico melhor.
— Já alguma vez lhe disseram que ressona?
Ela corou.
— Um vizinho disse-me uma vez que, à noite, eu fico como que sem respirar… e depois puxo ar de repente.
Olhei para a Luna. Ela continuava a não desviar os olhos da Anna.
— Parece-me, disse lentamente, que a Luna não a acorda por teimosia. Talvez esteja a reagir ao que lhe acontece enquanto dorme. Os animais percebem alterações na respiração ou ritmos cardíacos irregulares. Para ela, isso é um sinal de perigo.
A Anna olhou para mim como se eu tivesse dito algo estranho.
— Quer dizer… que ela me está a salvar?
— Não posso provar, respondi. — Mas tenho a certeza de uma coisa: o problema não é a gata. Precisa de fazer exames. Sangue, glicemia, coração… talvez também o sono. Comece por aí.
Ela ficou em silêncio durante muito tempo e depois assentiu.
Uma semana depois, a Anna voltou a ligar. A voz dela já era outra — mais viva.
— Fiz os exames, disse. — Tenho a glicemia alta… e problemas no coração. Os médicos disseram que, às vezes, à noite a minha respiração pára. Isto é grave…
Fez uma pausa.
— Se a Luna não me tivesse acordado… eu continuaria a pensar que eram só os nervos.
Agora a Anna está em tratamento. Recebeu medicação e o sono tem vindo a melhorar aos poucos.
E a Luna continua a aparecer à noite — mas já não a acorda. Apenas se deita ao lado dela… e ronrona baixinho.







