Meu marido morreu em um acidente de carro. Tudo aconteceu de repente, sem aviso. No hospital, me devolveram os pertences dele: a carteira, as chaves, o relógio… e o telefone. Disseram que os ferimentos tinham sido graves demais.
Guardei o celular dele longe — como uma lembrança dolorosa do homem que eu amava.
O tempo passou. Um dia, finalmente resolvi levá-lo para consertar.
A assistência ficava em um espaço semip subterrâneo de um velho shopping. O técnico — um homem comum, na casa dos quarenta — examinou o aparelho com calma e disse que seria preciso trocar a tela. Nada complicado, cerca de uma hora de espera.
Sentei na única cadeira. Ele acendeu a lâmpada, pegou as ferramentas e começou a desmontar o telefone com cuidado. Trabalhava com segurança, com concentração.
Eu olhava pela janela embaçada, com gotas de chuva escorrendo pelo vidro… e pensava nos filhos. Como vou explicar a eles onde está o telefone do pai? Minha filha vai entender. Mas meu filho… às vezes ainda pergunta quando o pai vai voltar.
Depois de meia hora, a tela já tinha sido trocada. O técnico conectou o telefone ao carregador e apertou o botão de ligar.

A tela acendeu.
E de repente — vibrou.
Eu não reparei na hora, mas vi a expressão do técnico mudar. Ele franziu a testa e ficou olhando para a tela por mais tempo do que o normal.
— Tem algo errado? — perguntei.
Ele se virou devagar para mim, com o telefone na mão, e disse baixinho:
— É melhor você ler isso… Desculpe. Eu não queria olhar, mas a mensagem apareceu na hora.
Peguei o telefone. Primeiro, as letras se embaralharam diante dos meus olhos. Mas, quando entendi o que estava escrito, senti como se o mundo desabasse.
A mensagem era de um contato desconhecido. No lugar do nome — apenas um coração.

“Querido, estou te esperando há vinte minutos. Quando você vem? Ou sua esposa te segurou de novo? Vem logo, estou com saudades…”
Tudo ficou escuro diante de mim.
Eu não tinha escrito aquilo.
Então… ele tinha outra mulher.
Naquele dia, ele não estava indo para casa. Nem para o trabalho.
Estava indo até ela.
Rápido demais.
E foi por isso que aconteceu o acidente.
Sentada na oficina, com o telefone do meu marido nas mãos, entendi pela primeira vez que eu não havia perdido apenas meu marido… mas também a verdade sobre ele.
E agora eu não sei como viver com esse pensamento — com a ideia de que o homem que eu amei e por quem chorei morreu apressado para chegar até outra mulher.







