Todos os dias, uma senhora idosa aparecia na fronteira numa bicicleta velha, transportando um saco de areia num cesto — os guardas fronteiriços não percebiam porque é que ela precisava de tanta areia, até ao dia em que descobriram um segredo inesperado

POSITIVO

Todos os dias, uma senhora idosa aparecia na fronteira numa bicicleta velha, transportando um saco de areia num cesto. Os guardas não percebiam porque é que ela precisava de tanta areia, até ao dia em que descobriram um segredo inesperado.

Todos os dias, logo à entrada da fronteira, a mesma senhora chegava numa bicicleta velha. A bicicleta era gasta, com o guiador torto e os pedais a ranger, e no cesto da frente, havia sempre um saco de areia. O saco era resistente e estava bem amarrado.

A princípio, os guardas não lhe prestaram muita atenção. Ela simplesmente passava — as pessoas estranhas estão por todo o lado. Mas quando ela começou a aparecer todos os dias, sempre com a mesma areia, as perguntas surgiram naturalmente.

“Olha, lá está ela outra vez com a areia”, disse um dia um dos guardas.

“Oh, qual é”, respondeu outro. — O que poderá uma senhora idosa estar a carregar?

Mesmo assim, o saco era inspecionado. Abriram, espalharam a areia, apalparam o fundo, procuraram esconderijos. Nada. Apenas areia cinzenta comum.

Passadas algumas semanas, os superiores decidiram que a situação era suspeita.

“Enviem amostras para análise”, disse o chefe da estação. “Nunca se sabe. Pode ser contrabando ou algo pior.”

A areia foi retirada à avó, colocada em sacos e enviada para o laboratório. Esperou calmamente, sentada no passeio, sem reclamar.

“Avó, para que precisa de toda esta areia?”, perguntou um jovem guarda fronteiriço.

“Preciso dela, meu rapaz”, respondeu, encolhendo os ombros. “Sem ela, não consigo fazer mais nada”.

Os resultados da análise chegaram rapidamente. Nenhuma impureza, nenhum metal precioso, nenhuma substância proibida. Apenas areia comum.

Uma semana depois, a história repetiu-se. E de novo. E de novo. A areia foi enviada para análise vezes sem conta, mas o resultado era sempre o mesmo: estava tudo limpo.

“Talvez ela esteja a gozar connosco”, resmungaram alguns dos guardas fronteiriços.

“Ou talvez estejamos a deixar passar alguma coisa”, responderam os outros.

Os anos passaram. Os guardas mais novos cresceram, os mais experientes reformaram-se, e a avó continuou a atravessar a fronteira com a sua bicicleta e o seu saco de areia. Cumprimentavam-na, ora brincavam, ora resmungavam, mas deixavam-na sempre passar depois da verificação.

“És tu outra vez, avó”, um deles sorriu.

“E para onde iria?”, respondeu ela.

Um dia, ela simplesmente deixou de vir. Não apareceu mais. Um dia, dois dias, uma semana. Ninguém deu grande importância — a vida na fronteira seguiu o seu curso normal.

Muitos anos se passaram.

Um antigo guarda fronteiriço já estava reformado há muito tempo. Certo dia, caminhava lentamente pelas ruas de uma pequena cidade, observando as montras das lojas. De repente, viu uma figura familiar. Uma senhora idosa, muito magra e curvada, a empurrar uma bicicleta velha ao lado.

Ele parou.

“Avó…” disse ele cautelosamente. “És tu?”

Ela encarou-o por um longo momento e depois sorriu levemente.

“Oh, meu rapaz… Envelheceste. Deves ser tu.”

Permaneceram em silêncio por um instante, até que ele não aguentou mais.

“Diz-me”, pediu em voz baixa, “transportas sempre algo naquele saco quando atravessávamos a fronteira. Enviámos aquela areia para análise tantas vezes. O que havia nela? De qualquer modo, estou reformado agora, não contarei a ninguém.”

A avó riu-se e depois revelou o segredo que guardara durante tantos anos. O antigo guarda fronteiriço ficou chocado com o que ouviu.

A avó esboçou um leve sorriso e acariciou o guiador da bicicleta.

“Conferiu tudo”, disse ela calmamente. “Tudo menos a coisa mais importante.”

“Exceto quê?”, perguntou, confuso.

“Exceto a bicicleta”, respondeu ela. “Era isso que eu estava a transportar.”

Ficou paralisado, depois começou a rir lentamente, abanando a cabeça.

“Inacreditável… Tantos anos…”

“Não é nada”, disse a avó, gentilmente. “Estavas a fazer o teu trabalho honestamente. É que às vezes olhamos com tanta atenção que não nos apercebemos do que está mesmo à nossa frente.”

Despediu-se e foi embora, empurrando a bicicleta ao lado.

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