No asfalto, junto ao contentor do lixo, reparei num monte estranho, de cor castanho-rosada, e a princípio pensei que fosse apenas lixo – até que começou a mexer-se.

POSITIVO

Logo de manhã, saí para o pátio quase automaticamente, com o telemóvel e o café na mão.

O pátio ainda estava húmido da chuva da noite anterior, o asfalto escuro e o ar cheirava a terra molhada. Caminhei até aos contentores do lixo e, de repente, reparei numa mancha estranha, alongada, castanho-rosada, na calçada.

A princípio, nem parei. Pensei que alguém tinha atirado comida. Aliás, foi isso mesmo que me veio primeiro à cabeça: como se alguém tivesse despejado uma montanha de esparguete cozido no asfalto.

Estavam amontoados numa massa irregular, agarrados uns aos outros, húmidos como se tivessem acabado de cozinhar. Aproximei-me para evitar o contacto — e nesse instante, um arrepio percorreu-me a espinha.

A massa começou a mexer. E então, com horror, percebi que não se tratava de esparguete, mas…

Encarei aquilo, sem compreender de imediato o que tanto me perturbava. Então ficou claro. Aquela “pilha” movia-se lentamente. Não aos solavancos, não ativamente, mas como uma massa que respirava.

Linhas finas entrelaçavam-se e moviam-se ligeiramente, como se fosse um organismo vivo.

Uma sensação de repulsa e um estranho arrepio invadiram-me. Dei um passo atrás e comecei a filmar mecanicamente. Ocorreu-me um pensamento: isto não pode estar a acontecer. Estava no meio do meu jardim, perante algo que nunca deveria estar ali.

Assim, fui à internet. Digitei a primeira coisa que me veio à cabeça: “Parece esparguete a mexer”. E quase de imediato, percebi que a pesquisa tinha sido um erro.

Não era lixo nem comida. Era um emaranhado de minhocas. Dezenas, talvez centenas, entrelaçadas numa única massa em movimento.

Tinham rastejado para fora depois da chuva, estavam privadas de oxigénio e enrolaram-se neste nó vivo mesmo por baixo das minhas janelas.

Permaneci agachada, olhando fixamente para o ecrã e depois para o asfalto, a tremer. Porque agora sabia o que era.

Desde essa manhã, já não olho para o chão automaticamente. Porque às vezes, entras no teu próprio jardim, pensas nas coisas mais banais… e descobres algo que te perturba e assombra durante muito tempo.

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