Pedi aos meus alunos de dez anos que escrevessem a sua maior preocupação; esperava ler “trabalho de casa” ou “monstros”; as respostas que me deram partiram-me o coração.

HISTÓRIAS DA VIDA

Pedi aos meus alunos de dez anos que escrevessem a sua maior preocupação; esperava ler “trabalho de casa” ou “monstros”; as respostas que me deram partiram-me o coração, fiquei em choque.

Durante trinta e nove anos, fui a Sra. Albright, na sala 2B, com a minha turma do quarto ano. Daqui a um ano, irei reformar-me. A minha sala de aula tornou-se uma verdadeira cápsula do tempo: os cartazes plastificados em 1992 nunca saíram das paredes, e ainda acredito na beleza obstinada da caligrafia cursiva. E, confesso, ainda acredito um pouco nos “bons tempos”.

Olho para os meus alunos, os seus rostinhos absortos nos telemóveis dos pais na hora da saída, e uma estranha tristeza invade-me. Cresci nos anos setenta. Os meus dramas de infância resumiam-se a pouco mais do que um joelho esfolado. Os deles, hoje, parecem abranger tudo o que o mundo lhes pode atirar à cara.

Numa terça-feira, trouxe uma relíquia da minha infância: a minha lancheira de metal vermelha de 1973, decorada com um astronauta.

“Crianças”, anunciei orgulhosamente, “aqui está a minha lancheira. Nessa altura, a nossa maior preocupação era descobrir se a mãe tinha posto fiambre ou manteiga de amendoim”.

Encararam-me em silêncio.

“Vocês são todos tão sérios hoje em dia… Então vamos brincar ao ‘Ontem e Hoje’”.

Escrevi num cartão: A minha maior preocupação? Ser a última a ser escolhida no queimado.

Algumas gargalhadas quebraram o clima tenso. Foi bom.

“A vossa vez. É anónimo. Escrevam o que realmente vos está a incomodar. Depois, dobrem o cartão e coloquem-no na lancheira do astronauta.”

O silêncio instalou-se imediatamente. O único som era o arranhar dos lápis. Mark, geralmente falador, permaneceu imóvel, com o olhar perdido no teto. Emily limpou uma lágrima antes de escrever. Um a um, colocaram os seus pedaços de papel na porta, o som seco do papel a bater no metal ressoando estranhamente alto.

“Excelente! Vamos ver o que mudou!”

Desenhei o meu próprio papel e brinquei. Ninguém se riu.

Ao abrir o papel seguinte, o meu sorriso gelou, suspenso pelo que acabara de ler.

“Tenho medo quando a campainha toca depois de escurecer. A mãe apaga todas as luzes e manda-nos esconder debaixo das cobertas. Acho que é o homem do banco.”

Prendi a respiração. Respirei fundo novamente.

“A mamã chora no duche para ninguém ouvir.” Ouvi-a dizer à avó que o “remédio” já não está a fazer efeito e que está “muito cansada”.

Mais um.

“O meu irmão mais velho diz que se eu contar ao pai o que ele está a fazer no quarto dele, ele vai publicar o ‘vídeo feio’ meu a chorar na internet. Nem sei de que vídeo ele está a falar.”

Outra.

“Estou a tentar não comer para ficar parecida com as meninas no telemóvel da mãe. Mas estou sempre com fome.”

Outra.

“Verifico o armário do pai todas as manhãs. Ele disse que ia ‘encontrar-se’ e que voltava. Os sapatos dele ainda não estão lá.”

Continuei. Durante dez minutos. A turma inteira sustinha a respiração.

Li histórias de pais “a dormir” que não acordavam. De gritos que ecoavam pelas paredes do apartamento. De medo perante as notícias. E de um rapazinho que simplesmente escreveu: “Espero o autocarro sozinho. Nunca ninguém acena da janela”.

Quando terminei o último cartão, fiquei sem voz. Endireitei a postura.

Os “bons tempos” eram uma mentira. Ou pior: um privilégio.

Diante de mim não estavam crianças. Eram pequenos sobreviventes aterrorizados, vestidos com t-shirts de super-heróis.

Vi Emily, a menina “perfeita”, estender discretamente a mão a Mark, “o tagarela”. Apertou-lhe a mão com tanta força.

Olhei para o meu próprio cartão: “Ser o último a ser escolhido no queimado”.

Aquele medo estúpido, insignificante e luminoso. Um medo que só existe num mundo suficientemente gentil para deixar uma criança preocupar-se com tão pouco.

Apertei o cartão com força. Não o deitei fora. Coloquei-o na lancheira, juntamente com os outros. Agora pertencia-lhes.

“Os bons tempos…” murmurei, com a voz embargada. “Não era melhor naquela altura. Era apenas… mais simples. Podíamos ser crianças durante mais tempo.”

O sinal tocou. Ninguém se mexeu.

Aquela caixa de metal já não fica na minha prateleira como recordação. Agora repousa na minha secretária como um lembrete. Somos uma sociedade obcecada em fingir que está tudo bem. Publicámos a foto das férias, não a discussão que as antecedeu. Mostramos a casa perfeita, não o aviso de execução hipotecária colado na porta.

E os nossos filhos observam. Não são “demasiado complicados”. Simplesmente vivem no mundo que criamos para eles.

Precisamos de parar de lhes dizer “sejam fortes” e começar a perguntar: “Está difícil hoje?”.

Não temos de resolver os problemas deles. Precisamos apenas de mostrar que não carregam esse fardo sozinhos.

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