Nunca pensei voltar ao cemitério naquele dia.
Fazia dois meses que não estava lá. Muita dor, muitas recordações, muita raiva ainda não digerida. Mas, naquela manhã, algo me impeliu a regressar. Talvez a necessidade de falar com ela. Ou de pedir perdão por aquilo que não pude ver durante a sua vida.
A minha mãe jaz enterrada num pequeno canteiro de flores, à sombra de um velho carvalho. Ela adorava peónias. Prometi a mim mesma que colocaria sempre algumas lá, mesmo fora da época. Foi isso que vim fazer nesse dia.

Mas, ao aproximar-me, pisei o travão.
Alguém já lá estava. Uma figura familiar, curvada sobre o túmulo, em processo de… remover as flores que tinha deixado.
Era a Marielle. A minha sogra.
Fiquei paralisada. Observei-a abrir um saco de lixo preto e deitar as pétalas ainda frescas.
Depois, ela tirou um vaso de plástico verde berrante com um bouquet falso. Flores sintéticas, sem alma, que ela cuidadosamente arrumou no seu lugar.
Fiquei demasiado chocada para falar.

Endireitou o pequeno porta-retratos que eu lá tinha colocado cuidadosamente — e guardou-o na mala. Como se tivesse sido um erro colocar ali uma fotografia da minha mãe.
Avancei, com o coração aos saltos e a voz trémula.
“O que estás a fazer, Marielle?”
Sobressaltou-se e virou-se lentamente, com um sorriso frio nos lábios.
“Oh, eu… eu só estava a limpar. As tuas flores estavam todas murchas.”
Era mentira. Tinham apenas dois dias.
“E a foto? Também te incomodou?”
A expressão dela mudou. Ela não respondeu. Apenas encolheu os ombros.
E então compreendi. Não era a primeira vez.
Cada vez que vinha, as minhas flores desapareciam. Os artigos pessoais que eu deixava para trás também. Pensei que fosse o vento ou um funcionário do cemitério. Mas era ela.
A Marielle não suportava que a minha mãe ainda tivesse um lugar. Mesmo morta.
Ela queria apagá-la, lentamente. Discretamente.
E o meu pai? Ele não disse nada. Fechou os olhos, como sempre.

Naquele dia, não gritei. Eu não bati. Apenas peguei na foto, deitei fora as suas feias flores de plástico… e voltei a colocar uma peónia, sozinha, na lápide.
Fui então ver o zelador do cemitério. E deixei uma clara instrução:
Mais ninguém pode tocar neste túmulo, exceto eu.
E da próxima vez que a Marielle se aproximar… eu estarei lá.
Porque algumas mortes só são lamentadas em silêncio.
Mas alguns túmulos… precisam de ser defendidos.







