À medida que os cavaleiros se aproximavam, o cão levantou a cabeça e olhou-os com os olhos tão cheios de dor pelo embate com a carruagem que o coração da menina começou a bater mais depressa e as lágrimas brotaram-lhe dos olhos…

POSITIVO

À medida que os cavaleiros se aproximavam, o cão levantou a cabeça e olhou-os com os olhos tão cheios de dor pelo embate com a carruagem que o coração da menina começou a bater mais depressa e as lágrimas brotaram-lhe dos olhos…

Macha colocou delicadamente um cabresto na cabeça da égua e levou-a para fora do estábulo. Depois de amarrar a corda ao anel no corredor do estábulo, não pôde deixar de parar um momento para admirar o seu protegido. Valachia era uma graciosa égua preta com manchas brancas em cada perna. Ela parecia o sonho de qualquer cavaleiro a tornar-se realidade.

A menina pegou numa escova e começou a pentear delicadamente o pelo sedoso, murmurando palavras carinhosas de admiração pela sua beleza. Entretanto, a égua parecia visivelmente nervosa: batia os pés, levantava a cabeça bruscamente e ouvia atentamente os sons à sua volta.

Macha, apercebendo-se do seu nervosismo, passou delicadamente a mão pelo pescoço da égua:

— O que aconteceu, minha querida? Por que razão está tão preocupado?

— Está mesmo a falar com ele? —ouviu uma voz familiar. O noivo Veniamin aproximava-se.

— Tio Venio, tenho a sensação de que há algo de errado com ela. Nunca se comportou assim desde que está connosco – Macha não tirou os olhos da égua e continuou a acariciar-lhe suavemente o pescoço.

“Talvez ela tenha sentido alguma coisa”, disse o velho cavalariço calmamente, examinando cuidadosamente o animal. —E aquela égua… que linda. Um verdadeiro banquete para os olhos.

— Também tem um caráter maravilhoso. E é perfeitamente educada. Ainda não consigo perceber como é que o antigo dono dela se pôde separar dela.

“Sem dúvida que deve ter havido algum defeito oculto”, comentou Veniamine, pensativa.

— Ela não tem um único defeito! — Macha exclamou fervorosamente.

Nesta altura, Valachia abanou a cabeça violentamente, como se apoiasse as palavras da sua jovem senhora.

“Veja, ela até se ofendeu”, o homem sorriu, encolheu os ombros e seguiu em frente.

Enquanto Macha selava Valachia e a levava para o exterior, a égua começou a olhar em redor ansiosamente novamente. A sua atenção foi atraída pela floresta do outro lado da estrada.

“Ok, se quiseres, vamos lá hoje”, disse Macha, seguindo o olhar da égua. — Está muito bem na sua viagem, está na hora de descobrir algo novo.

Com um movimento ágil, saltou para a sela e conduziu a égua em direção ao caminho da floresta…

O verão estava apenas a começar, a manhã estava fresca e andar a cavalo pelo caminho sombreado era um verdadeiro prazer. Valáquia caminhava confiante, embora parasse de vez em quando, ouvindo atentamente os sons da natureza.

Macha começou a trotar e conduziu a sua companheira pela rota que esta tinha feito com o seu velho cavalo, Gradomir. A memória voltou – o momento em que os veterinários fizeram um diagnóstico sombrio e Macha foi obrigada a enviar o seu fiel amigo para uma quinta, no campo, para que pudesse viver lá com mais paz.

Na altura, precisava urgentemente de um novo cavalo para competição e, após uma longa procura, ela e o seu treinador voltaram a sua atenção para Valachia, encontrado num prestigiado clube da capital. Assim que se sentou na sela, Macha soube imediatamente que era ela.

O clube concordou em financiar a compra e a égua mudou-se rapidamente para a sua nova casa. Pensando em tudo isto, Macha pensou mais uma vez no comportamento estranho do antigo dono, que parecia estar com pressa para se ver livre do animal.

De repente, Valáquia parou. Macha quase caiu da sela, de tão imersa em memórias. A égua permaneceu gelada, sem responder a qualquer comando, recusando-se a avançar.

– Do que se trata? Porque é que não quer seguir em frente?

Valachia bufou baixinho, ainda imóvel, e virou ligeiramente a cabeça para a direita. Macha seguiu o seu olhar, mas apenas viu arbustos e árvores.

— Queres ir lá? — perguntou ela curiosa. Ela afrouxou as rédeas e deixou a égua ir para onde quisesse. — Certo, mostre-me…

Valáquia deixou o caminho principal e entrou na floresta. Passados ​​alguns minutos, Macha ouviu o mesmo som que a égua aparentemente tinha ouvido: um gemido baixo e triste.

Em breve chegaram a uma bétula, ao pé da qual se encontrava uma caixa coberta de ramos. O mesmo gemido baixo escapou-lhe. Macha saltou do cavalo, separou os ramos e olhou para dentro. Eram três gatinhos pequeninos, com os olhos mal abertos, a miar de medo e fome, tirados à mãe.

Macha sentiu uma onda de raiva e dor a crescer dentro de si:

“Deves ser um monstro sem coração…” murmurou ela, agarrando a caixa contra o peito. — Anda, Valia, temos de ir para casa depressa.

— Isto é incrível! — exclamou Irina Dmitrievna, ouvindo a história da sua aluna.

— Ela levou-me diretamente para lá. Como se soubesse exatamente para onde ir, concluiu Macha.

No mesmo dia, Macha levou os gatinhos de volta para o clube de equitação. O veterinário examinou-os e confirmou que estavam bem. Dois deles rapidamente encontraram novos lares, enquanto Macha decidiu ficar com o terceiro – um pequeno preto com patas brancas.

Este gatinho fez-lhe lembrar surpreendentemente a Valáquia — a mesma elegância, a mesma nobreza. Assim que atingiram a idade apropriada, mudaram-se para novos lares.

— Que milagre, esta Valáquia! — exclamou o treinador com admiração. —As pessoas passam e não vêem nada, mas ela… ela sente coisas. Alma verdadeira.

Enquanto isso, Macha e Valachia concentraram-se inteiramente na preparação para a competição. O treino estava a todo vapor. Em julho, ficaram em segundo lugar na competição local e em agosto venceram o torneio regional. Próxima paragem: os maiores eventos da época na capital do distrito.

“Masha, estarei à tua espera na escola de equitação daqui a quarenta minutos”, disse Irina Dmitrievna, olhando para os estábulos.

Entretanto, Valachia estava parada à porta, andando nervosamente de um lado para o outro e relinchando alto, como se sentisse alguma coisa.

“Calma, querida…” Macha aproximou-se rapidamente, tentando acalmar a égua nervosa.

— O que é que lhe deu? — perguntou Irina Dmitrievna, observando atentamente a Valáquia, que estava claramente preocupada. Era a primeira vez que ela via a égua em estado tão tenso.

“Ela já se estava a comportar assim quando encontrámos aqueles gatinhos na floresta”, respondeu Masha gentilmente, tentando acalmar a sua companheira.

— Sele-a e vá ver o que se passa em frente ao clube. Talvez haja um problema algures — o técnico olhou para trás da baliza. —E leve Veniamina consigo. Tome cuidado.

Vinte minutos depois, dois ciclistas fizeram-se à estrada. Macha permitiu que a Valáquia escolhesse o seu caminho, como antes. A égua avançava confiante, por vezes acelerando e parando subitamente, ouvindo atentamente os sons à sua volta.

Passaram por uma fila de casas nos arredores e chegaram a uma estrada rural. Os carros passavam ruidosamente, alguns condutores buzinavam – os ciclistas na berma da estrada estavam a causar preocupação entre os condutores.

“É um capricho”, murmurou Veniamine. — Cedemos aos desejos da égua.

“É melhor segui-la do que se arrepender depois”, respondeu Macha, mas não teve tempo de terminar a frase.

Perto da orla da floresta viram um cão. Um cão pastor alemão de grande porte estava imóvel, depois de ter sido atropelado por um carro. À medida que se aproximavam, os cavaleiros viram o cão levantar lentamente a cabeça. Os seus olhos estavam cheios de dor e desespero. Macha colocou a mão no peito e o coração pareceu bater mais depressa. Os seus olhos encheram-se de lágrimas. Agora ela compreendia de onde vinha a ansiedade de Valachia…

Macha saltou delicadamente da sela e acariciou carinhosamente o pescoço de Valachia. Tinham acabado de participar na competição regional de dressage e Macha estava satisfeito com o seu desempenho.

— Foi ótimo! — gritou Irina Dmitrievna, correndo na direção deles.

“Wallachia sente música através da pele”, disse Macha com um sorriso feliz no rosto, ajustando os seus estribos. — Tenho a certeza de que é a melhor égua do mundo.

– O melhor? —uma voz feminina trocista soou atrás deles. — É uma égua com defeito.

Macha virou-se abruptamente. Uma senhora com um traje de competição estava montada num cavalo castanho, pronta para entrar na pista. O seu rosto parecia familiar para Macha.

— Por que diz isso? —A voz de Masha ficou mais fria. — Não conhece a Valáquia. Este é um animal nobre…

“Conheço-a melhor do que tu”, interrompeu a mulher. — Eu era o dono.

“O antigo proprietário”, explicou Irina Dmitrievna.

— Não percebo como pode dizer isso dele! — Macha ficou indignado.

—Durante o ano em que esteve comigo, acolheu vários animais abandonados. Cães, gatos… Já chega. O mesmo aconteceu com os antigos donos: todos se livraram deles por esse mesmo motivo.

— Simplesmente não consegue ver a bondade ou a alma nisso! — respondeu Irina Dmitrievna calma mas firmemente. — Isto não é um defeito. Isto é generosidade.

Nesse momento, um pastor alemão veio a correr na direção deles, todo contente – era o mesmo cão que Valachia tinha salvo no ano anterior. O seu nome era Óscar. A busca pelos antigos donos não teve sucesso e Macha adotou-o.

À sua espera em sua casa estava um gato preto com patas brancas – Cosmos. Foi o que salvaram juntos na floresta.

O cãozinho, encontrado no outono, tornou-se o fiel companheiro de Veniaminé. E agora Irina Dmitrievna tinha um gato tricolor que salvaram depois de uma das competições.

Graças à Valachia, três cães e quatro gatos encontraram novos lares. E tudo isto, segundo o antigo proprietário, era uma “falha”?

“Talvez o problema não seja ela, mas sim tu”, disse Macha friamente, afastando Wallachia de si.

Ganharam o primeiro lugar naquele dia. Quando regressaram ao clube, já noite dentro, Masha e Irina Dmitrievna ouviram um barulho forte vindo do atrelado dos cavalos: alguém batia os cascos.

Pararam imediatamente, abriram a porta e ouviram um relincho alto. Valáquia voltou a sentir algo. E tal como antes, alguém precisava de ajuda, e urgentemente…

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